“o governo e diversas multinacionais pagam os alienígenas cabeçudos para bombardearem em nossas mentes propagandas e publicidades subliminares””

Tuesday, September 04, 2007

profecia

Uma mesinha frágil, com copo seco há uns dias, porta lápis cheio de tesouras e réguas mas nenhum lápis, impressora quebrada, boneco do Batman brinde de um ovo da páscoa, telefone fora do gancho, grampeador sem grampos, escritor sem idéias.
Ele fica em um quartinho, daqueles bem clichês escuros dos escritores isolados e sem dinheiro, com provavelmente cheiro de cigarro, bebida e testosterona sedentária fortes. Fazia muito tempo que ele não dormia, e ele nem lembra quando foi que entrou no quarto para escrever – jurou sair só quando terminasse seu romance. Na metade da primeira página a trama se desvinculou das primeiras idéias descritivas e transformou-se numa ficção de surreal desdobramento. A lâmpada da luminária desenroscou-se lentamente continuando acesa – e brilhando cada vez mais. A lâmpada criou vida, e inclusive falou “Sou um anjo enviado por deus do mundo das idéias”. O escritor antes de qualquer coisa pensou a respeito da cafonice que seria um anjo em forma de lâmpada representando o mundo das idéias em seu livro. Depois ele se assustou, ajoelhou e gritou por piedade. A lâmpada flutuando por mais que brilhasse não iluminava o quartinho, fazendo parecer um enorme espaço negro sem fim. Ajoelhado o escritor puxava com a mão direita a bermuda que deixava escapar o cofrinho e com a esquerda fazia sinal da cruz. “Palerma, é com a direita que se faz sinal da cruz”, exclamou a lâmpada angelical. O escritor chorava de medo e desespero se perguntando se já estava morto ou iria começar em algum momento. “Não sou anjo deste Deus, palerma. Sou do mundo das idéias, idealizada por Sócrates”!
“Platão”.
“Que seja!”.
Bem na hora da quebra de parágrafo, pensou o escritor. Pouco antes da metade da primeira página de seu livro perdeu o fio da ninhada. Poderia ter vindo uma musa sensual, e não uma lâmpada fluorescente. O escritor segurou sua incontinência urinaria, encheu seu coração de coragem e perguntou “o que você quer?”. A lâmpada então sorriu. O escritor viu pela primeira vez uma lâmpada sorrindo – e ninguém mais sabe como é além dele. Sorriu e falou “Estamos com discos voadores poparts espalhados por esse planeta, e finalmente dominaremos o mundo como temia seu velho filosofo”.
Aquilo era mais do que filosofia, era ficção cientifica descabida misturada com religiosidade e noções básicas de filosofia e arte extremamente mal estudadas.

Tuesday, July 03, 2007

reunião

Suas pernas eram lindas. Soberbas. Descruzou e cruzou de propósito. Estava sem calcinha, aquela vadia. Ascendeu um cigarro, bebericou o whisky.
- Você fuma? – ela perguntou.
- Não, nem bebo. Mas pode ficar a vontade. Não me incomoda a fumaça.
Embaralhei as cartas de varias formas possíveis para passar o tempo. O gosto de fumaça entrou pelo nariz e secou a garganta. Faltava a chegada de Bob.
- Você é o que dele mesmo? – perguntei.
- Ex. A que sobreviveu aquele maníaco.
Exagerada. Todas elas. Bob é um filho da puta, e as mulheres adoram os filhos da puta. Lembro-me quando Bob comeu a gatinha da sala em plena quarta serie. E depois a professora. Era horrorosa, foi uma aposta. Já fazia duas horas desde o horário marcado. Fazia anos que ele não ligava pra mim.
- Aló?
- É o Bob.
- Há.
- É.
- Hum.
- Escuta, preciso falar com você.
- To sem grana.
- Não é isso. É muito importante para mim. Naquela lanchonete que dizem assar ratos. Como quando éramos garotos.
- Hoje em dia é uma Mcdonalds.
- Isso. Na Mcdonalds ás três da tarde. Conto com você. Clic.

- Você tem fogo?
- Hum?
- É que acabaram meus fósforos.
Ela até que era bonita de rosto também. Bob é um canalha filho da puta miserável.
- Já falei que não fumo.
Ela olhou feio pra mim, deu fim a sua bebida num gole só. Depois soltou um arroto.
- Desculpe.
- Tudo bem.
Depois de mais uns quinze minutos ele chegou. Estava acabado, com óculos escuros remendados. Circulou pela lanchonete como que fingindo que não nos avistara, depois com o cinismo que lhe é sempre atribuído abriu os braços sorrindo exageradamente.
- Docinho!
- Seu merda.
- Meu chapa!
- Já falei que to sem grana.
Daí ele puxou uma cadeira, sentou que nem um texano metido e contou uma história extraordinária sobre andar pelo deserto por semanas, visões espirituais, alienígenas viciados, entre outras coisas absurdas. Deus sabe como aquilo tudo era ridículo, mas é raro ver sinceridade nos olhos de Bob como naquela hora.
- Tudo bem Bob, toma dez pratas.
- Obrigado cara!
- Meu docinho, quer dormir no meu apartamento hoje?
- Já disse que te amo meu amor?
O casal de pombinhos foi na frente. Fiquei mais um pouco na lanchonete, pedi um hambúrguer. E adivinhem só: quando abri o sanduíche para por ketchup tinha um rato tostado lá dentro.

Tuesday, May 29, 2007

Drinking Dog

Ele tinha uma cachorra alcoólatra, e nunca soube seu nome. De tão bêbada só gemia e soltava um latido fino que indicava constante ressaca. Entendia muito de cinema, e sua principal atração era os filmes expressionistas alemães. Perdeu a virgindade com apenas oito anos. Uma cadela vira-lata, jogada no sofá vendo televisão. Tinha que tomar cuidado para não escorregar nas garrafas que ela deixava jogadas pelo chão. Eu era um escritor, ninguém nunca lera o que escrevi. Nem nunca publiquei. A única pessoa que conhecia era a cachorra para quem eu lia os contos em voz alta. Ela nunca deu uma opinião formada. Mas acho que se continua jogada do meu lado enquanto escrevo, ao menos não é insuportável. Às vezes quando as idéias não viam discutíamos literatura, cinema e coisas que os universitários de comunicação fazem para fingirem que possuem algum conteúdo. Ela, por ser uma cachorra, não podia fazer curso superior. Mas lia tudo que podia, e entenda muito mais de antropologia que qualquer professor que já tive.
Um dia cheguei em casa, e a cachorra estava deitada de barriga para cima, com os olhos muito vermelhos de tanto chorar. O telefone estava fora do gancho. Peguei-o para escutar quem estava do outro lado. Estava em algum tipo atendimento de apoio para alcoólatras. Ela queria ir para o AA, e queria fazer um documentário sobre isso. Seria um sucesso o documentário sobre a cachorra cineasta alcoólatra tentando abandonar a bebida. Uma inspiração para todos os outros caninos viciados.

Wednesday, April 25, 2007

minotauro

Tem livros empilhados.
Até o teto, parecem pilares que o sustentam. O quarto é pequeno, mas os pilares criam caminhos mofados e escuros que fazem com que me perca facilmente. Tudo é tão colorido, com capas vermelhas, verdes, azuis, desenhadas, de couro, papel. Com marca textos enfiados, de pontas tão afiadas que meu corpo está cheio de cortes. Os cortes pingam sangue, e já faz tantos litros pingados desde que comecei a empilhar que o chão é todo vermelho. O cheiro é acre, misturando sangue coagulado, poeira, livro novo, suor, fezes e urina. Perdido entre os corredores de livros não é possível achar um banheiro. Ele ainda nem começou a ler direito o primeiro. Mas seu vicio o trancafiou assim. Num cenário tão assustador quanto um pesadelo cinematograficamente cafona. “É tudo culpa da vida acadêmica”, ele comenta para os visitantes perdidos em algum lugar nesses corredores e pilastras. Ele é como o Minotauro: preso e guardião.

Tuesday, April 24, 2007

amor

Sua namorada uma vez deu uma idéia:
- Por que não usa a cachorra que te dei?
Ela era uma menina normal, ele nunca imaginou uma coisa como essas.
- Que coisa nojenta! Isso é doentio, amor!
- Se você por uma camisinha e fechar os olhos, aposto que nunca iria notar a diferença.
O assunto era sexo oral e as maneiras que ela inventava para ele sempre pensar nela. Era uma menina adorável, mas com algumas idéias bastante estranhas. Foi trágico o dia que ela morreu, atropelada por um carro de som. Ele ficou tão deprimido, triste, desesperado. Era seu grande amor. Sua fonte de sexo fixo. Louco de tanta tristeza, não foi surpresa o que ele pensou quando sua cachorrinha veio consola-lo. Tateou uma camisinha na carteira e o fez.

Friday, January 26, 2007

Musical

”Hoje de manhã cedo. Quando você bateu na minha porta. Eu disse olá, Satan, acho que é hora de ir". Essas palavras não eram de Bob – eram da música quando ele chegou no bar. Mas eram palavras de comprimento do próprio bar falando “Boa noite, Bob. Entre, por favor, beba, fique a vontade, dê uns tragos, ame minhas mulheres por mais uma noite”. E Bob respondeu “Obrigado, claro, uma bebida barata, por favor. Mulher venha aqui, uma bebida para está mulher; sorria mulher, hoje é um bom dia e será uma boa noite”. E no ritmo das palavras de Bob, a porta fechou rangendo e mesclados com aquele velho Jazz pareciam uma musica só. Aquele Bar era uma velha canção de ninar para Bob quando ele queria dormir em grande estilo.

Friday, January 19, 2007

trec, trac,

Havia algo mágico no condomínio que moro: por não termos porteiros cada um tinha de carregar suas chaves. O que nunca acontece na vida real. Então era aquela coisa: esqueci a chave, fico lá embaixo, aparece alguém do prédio que abre. Começam aquelas conversas do tipo “ta quente hoje, hein?” e coisa e tal. Em 20 anos de vida, esse foi o prédio mais social que morei por causa disso. Dai botaram os portões automáticos. Era só interfonar que lá de cima aperta-se os botoezinhos, trec, trac, abriam os dois portões que separam os gatunos do elevador principal. Acabou aquele fenômeno social: ninguém mais tinha oportunidades de falar do calor e “coisa e tal”. Nem lembro mais do rosto de meu vizinho (que desconfio ser homossexual – nada contra é claro). Acabou a sociabilidade e as chances de trocar algumas palavras com aquela menina bonita do andar de cima. Poderíamos até ter nos casado, filhos etc. Mas não da mais devido aos benditos portões automáticos.

Saturday, December 30, 2006

macacos

Certa vez avistei macacos atacando um bebedor escolar.
Você vai dizer que estou mentindo. É a pura verdade. Não tenho testemunha alguma além de meus dois precários globos oculares. Certa vez matei aula um mês inteiro. Não chegava nem a entrar no colégio; uma amiga já me esperava sentada lá embaixo. Perguntava se tava afim de tomar sorvete.
E íamos tomar sorvete.
Um mês tomando sorvete toda manhã. E depois, o ano ia acabando.
Essa amiga nunca mais vi; tirando uma vez na rua, quando não fui reconhecido. E teve outra vez, que fui reconhecido, num ônibus. Perguntou como se falava determinada coisa em japonês. Eu respondi. O ônibus parou e ela se foi. Quando ela precisava de mim fui reconhecido. Nesse dia entendi como são as pessoas. Não condenei. Nesse dia também tinha ido ao cinema, era sexta-feira e gostava de ir ao cinema nas sextas-feiras. Não tinha ninguém na sala além de mim – e foi o dia que entendi que estava só. Nunca falei pra ninguém a respeito dos macacos.E logo naquela hora o que eu mais queria era falar sobre os malditos macacos.

Saturday, December 16, 2006

insônia

Aparecia pela manhã. Parecia sua mãe, reclamando que ele deveria voltar a dormir, se medicar e voltar a estudar. Ele era um adolescente acabado e inconformado com o rumo das coisas, e tudo que lhe restara era uma menina que só fazia reclamar. Ele não reclamava, pois adorava seu cafuné. Estava sem dormir há pelo menos duas semanas, e ficava cada vez mais difícil distinguir a realidade dos sonhos frustrados. A chata aparecia pelo menos duas vezes por semana e perguntava “dormiu hoje?”. Ele ficava escrevendo no computador, lendo alguma coisa, vendo televisão, comendo porcaria. E quanto às noites: sempre respondia comentando a respeito de um eterno jogo de xadrez que travava com um conhecido na internet. “Acho que ganho dessa vez”. A menina fazia um olhar preocupado, diferente de qualquer outro. Ele tinha vontade de ficar sem dormir todas as noites, só pra sentir a ternura daquele olhar. “Quando ganhar ou perder vai voltar a dormir pelo menos?”. “Tenho medo do que eu venha a perder se voltar a dormir”, respondeu por fim.

Saturday, December 09, 2006

podre por dentro

Passou o dia andando, pra lá e pra cá. Era o dia mais quente do ano, e seu rosto estava avermelhado, fritando. Os olhos estavam tristes, escondidos por baixo da cabeleira. Também devia cortar o cabelo, deixar umas cartas e pagar contas naquele dia. Funcionava como um robô, sem pensar demais, apenas processando e organizando o que tinha de ser feito naquele dia. Andando lentamente, para gastar o máximo de tempo que pudesse.
Cada vez mais o rosto dele fritava.
Suor inalava um fedor incomum, como se estivesse completamente podre por baixo da pele. Já passavam das seis horas, e para demorar um pouco mais pegou o ônibus que mais rodaria a cidade. Naquele dia não havia porteiro, e esquecera a chave de propósito. Ficou encostado, esperando até que alguém chegasse para abrir a porta. Passou uma pessoa, perguntou se ele ia entrar; respondeu que não. Decidiu que esperaria sua mãe.
A mãe perguntou se ele estava bem, lhe entregou algumas sacolas e subiram o elevador. Ele ficou calado; esperando a mãe reclamar que ele deveria tomar um banho. Ela reclamou e ele foi tomar um banho. Seu rosto ardia com a água caindo. Ardeu muito mais suas lágrimas salgadas: caiam discretas enquanto tentava dormir.
No outro dia acordou e viu seu rosto todo marcado e ardido onde desceram as lagrimas. Como uma maquiagem borrada na pele, revelando o que estava podre por trás. Aquela ardência o lembrou de sua tristeza por alguns dias.
Quando o rosto estivesse normal poderia fingir que estava tudo bem.

Wednesday, December 06, 2006

exsudato e polimorfonucleares

Renato espremeu o máximo que podia, entre os dedos escorregava devido ao suor e pus. Era tão perto da virilha que uma pessoa de longe iria achar quer ele estava tentando arrancar o próprio pênis. Sua careta não mentia: doía. Doía pra caralho.
Sangue misturado com pus pregavam os pentelhos entre si, manchavam a calça com um raro vermelho amarelado esverdeado.
Parecia que nunca ia acabar.
E não acabou. Renato desistiu, foi ao banheiro, lavou bem o cacete na torneira. A pia ficou cheia de sangue e pentelhos. Mamãe sempre falava que se deve limpar a pia depois de usá-la. Renato sempre foi teimoso, e deixou a nojeira do jeito que tava.
No dicionário pus é exatamente uma mistura de exsudato inflamatório, leucócitos polimorfonucleares vivos e mortos, e bactérias vivas e mortas. Renato fechou o dicionário enojado da própria raça. Com medo de voltar ao dicionário e descobrir que porra é exsudato e polimorfonucleares. A virilha doía com o furúnculo semi-espremido, impedido qualquer ato de cunho sexual confortável.
- Alô?
- Deixa pra próxima semana, Márcia.
- Ainda é aquele furúnculo?
- Cada vez fica maior, dói e sai pus. Já to achando que é esperma acumulado por falta de sexo mesmo.
- Não duvido. Já faz quase um mês, vai num medico. Vai que é algo grave. Você pode perder seu pau, sabia?
O medico ficou olhando por pelo menos uns dez minutos. Depois começou a apalpar.
- Dói aqui?
- Você não faz idéia...
- E aqui?
Renato só conseguia responder com uma careta, pretendo os dentes, fechando os olhos, criando inúmeras rugas na testa. O medico parou de apalpar, e começou a escrever uma receita em sua prancheta.
- É algum tipo de infecção. Mas tratável. Não se preocupe.
Um peso enorme caiu da consciência de Renato.
- Compre esse antiinflamatório, evite por a mão, limpe bem com sabonete neutro e em uma semana tudo voltará ao normal.
O alivio era tamanho que no caminho de volta caíram lágrimas. Nunca chorou por ninguém. O pau seria uma aceitável exceção. Poderia ver o significado de exsudato e polimorfonucleares sem medo.

Sunday, October 22, 2006

Nirvana

O refrigerador não gela. E quando é verão piora minha alergia. Estou suando por todos os poros, bebendo litros de água e mijando toda hora. Aprendi que a vida pode ser prática. Comprei fraudas geriatricas. Cago e mijo sem ter de ir ao banheiro, Bebo litros de água. O refrigerador que esquenta me adoece. Estou quase lá para atingir o nirvana. Reflito em minha cabeça se Buda cagava e mijava durante os sete dias de meditação até conseguir o nirvana. Estamos no meu terceiro dia: mijo e merda acumulados nas fraldas. Estou quase lá.

Friday, October 20, 2006

velho senhor

Velho senhor tinha a mania de descansar o polegar sobre a testa. Depois toda a mão encontrava o rosto - e com ele se esfregava carinhosamente, o carinho do cansaço.
Logo em seguida,levantou de sua cadeira de balanço e foi até o armario tirar suas vestes. Velho senhor sempre pensava pelado, alegando que as roupas atrapalham o pensamento. Saiu pela única porta de seu quarto de encontro para o corredor - este cheio de portas. De todos eles, ao mesmo tempo, saem outros Velhos senhores. Um enfermeiro afeminado nos cortava, com copinhos de plásticos e comprimidos periódicos. O enfermeiro era apaixonado pelo Velho senhor, que já foi um grande escritor - daqueles que deixam afeminados excitadissimos.
Na sala de jantar, todos os Velhos senhores se sentam entre os simpatizantes. As panelinhas enrugadas discutem principalmente sobre o velhos tempos. Geralmente, de novo, só as jovens enfermeiras que são muito bem comentadas quando viram as costas. Vinte minutos é o tempo de jantar dos velhos senhores, depois todos voltam para o corredor, tomam mais comprimidos, e , cada um volta a ser só mais um velho senhor. Um, em especial, gosta de ficar pelado - e a meia noite tem visita especial do enfermeiro afeminado.

Sunday, October 01, 2006

Si(/e)m ponto [final]

Então estava ali, ao lado dele. As palavras faltavam - e havia como ser diferente? Sim, eles estavam ali...Três pontinhos. Sim, um, dois, três. Talvez se contar até dez. Mas numero nunca foram sua especialidade - sua especialidade são as letras. Dez letrinhas então?
- A m o v o c ê v i u !
Bem... Foram dez letrinhas, né.
Dez letrinhas. Ela não esperava nenhuma.Não sabia o que esperar. Mas sabia que a recíproca era verdadeira.
Sabia que seu coração estava sorrindo naquele dia, naquele momento. Não sabia o que fazer - limitou-se a beijar-lhe as mãos...
E ele a beija-la as mãos. Se começa pelas mãos...
[continua pelos beijos]

Friday, September 29, 2006

O Sangue de JFK

Era aquele cheiro enferrujado, roçando as narinas, angustiando o estomago, vontade de vomitar. Ficamos escondidos por pelo menos uns trinta minutos antes de notar os primeiros sinais de movimento: ruídos mecânicos rangentes fazendo ploc ploc ploc, difícil definir mas impossível de não reconhecer.

Ploc ploc ploc ploc ploc tsc tsc ploc ploc ploc

Exatamente entre os dois tsc, após um e antes do inicio de outro, corri de um galpão para o outro, imperceptível, que nem o Batman faria.
- Lembre que isso não é hq, é prosa.
- Hein?
- Você tá narrando achando que o leitor tá vendo tudo. Já destravou sua arma?
- Fique peixe.
Eu e o pequeno esperamos muito por isso. Os malditos espiões soviéticos estavam traficando corpos alienígenas de jurisdição norte-americana. Estamos em 2007 e uma boa maioria acha que os comunistas deixaram de existir. Deixaram um caralho – tão é traficando ETs.
- Lembre de descrever os soviéticos...
- Positivo.
Os comunas eram quatro, como de costume sempre andam em grupo com aqueles casacos de pele avermelhados – provavelmente banhados com o sangue de nosso amado e falecido JFK. E todo mundo por ai com medo de terroristas árabes.

Plocplocplocploc...

- Putaqueparil!
- Formos descobertos! Tão fugindo!
- Parados!
- Strogonof! – gritou um
- Filho da puta! Respeite minha mãe!
E dei uns três tiros no bigodudo mais gorducho, logo: mais lento; logo: o ultimo a entrar no disco voador; Logo: eles fugiram, mas temos um corpo para dissecar.

Wednesday, September 13, 2006

chaleira

Fiquei sentado na borda da varanda, pensando qual a sensação de cair dali. Listando quem iria ao enterro por consideração, quem iria por hipocrisia; quantas lágrimas crocodilescas seriam despejadas, se meu pai e minha mãe se abraçariam depois de anos sem se falar. Quanto seria o custo do enterro – deixaria uma carta avisando que é melhor cremar – quem sentiria saudades depois. Por quantos dias minha mãe iria chorar por mim, e meu irmão, e meu pai, e quem mais fosse. Como seria para quem descobrisse o que é me perder de verdade. Deleitei-me, sentindo o vento frio da varanda chegando ao meu rosto. Escutei a chaleira apitando, fui até a cozinha tomar meu chá.

inverno nuclear

Era uma vez uma marionete. Daqueles de madeira, com cordinhas prezas ao corpo como os que se vê por ai. Nessa vez, não tínhamos mais ventríloquos, para dar voz ao boneco. Ele ficava pendurado, entre coisas velhas sem nome, talvez sonhando encontrar uma fada azul, tal qual Pinóquio. Talvez sonhando em ver aquelas cordas que estrangulam seus membros sumirem, de sentir calor em seu corpo, aprender a respirar e ter brilhos em seus olhos. Um dia alguns mendigos invadiram aquele lugar, assim como as coisas lá jogadas, não tinham nome. Era um inverno nuclear e tudo que fosse madeira ajudaria numa fogueira.

Monday, September 11, 2006

Conspiração do Divã

Dizem por ai que o tempo tudo cura. Não acredito nisso. Para mim o tempo é como um analgésico, ele pode até adormecer a dor, mas o problema ainda existe. Não acredito que buscar uma solução imediata para tudo – e a todo custo - muitas vezes pode ser um defeito. Arrependi-me, na vida, muito mais do que não fiz, ou deixei para depois, do que as coisas que fiz. Claro que o tempo tem sua importância, tal qual o analgésico. Mas não deixo de achar que a invenção de falar que “o tempo tudo cura” é coisa dos analistas, psicólogos, psiquiatras e escritores de livros de auto-ajuda. Afinal de contas só os procuramos quando temos algum problema há muito esquecido e não mais sentido – mas que de alguma forma está afetando as nossas vidas. Eis a grande conspiração do divã: o tempo.

Friday, September 08, 2006

Vaga-lumes e Girassóis

Há muito tempo atrás; quando sequer tinham inventado o tempo, dia e noite eram desculpa para existirem vaga-lumes e girassóis; uma tribo nômade enviou o mais velho dos mais jovens para seu rito de passagem rumo a maturidade social – batizado de Iuooi.
O jovem franzino de pele amarela, com cabelos ruivos e olhos verdes, com seu corpo nu e coberto de pinturas rituais é deixado a sós com o líder espiritual que lhe diz “Você vai enfrentar três desafios, meu jovem. Entregarás teu coração para alguém, e sera como nascer de novo. Mas depois essa pessoa ira quebrar seu coração, e sera como morrer de novo, o segundo desafio”. “Qual o terceiro desafio?”, pergunta Iuooi tremulo. “Sobreviver para que outra pessoa possa quebrar seu coração novamente.”. O garoto engoliu seco, seus testículos suavam e oscilavam demonstrando o quão tenso e assustado ele estava.
“Não fique com medo, rapaz. Todos passam por isso e boa parte sobrevive.”. “E o que acontece com quem não sobrevive?”, pergunta, por fim, Iuooi. “Torna-se um líder espiritual”, suspira o velho.

Thursday, August 17, 2006

futurO

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Sinto o cheiro das palavras se aproximando de meus olhos. A verborragia digital explode em segundos e por um momento fico atordoado sem saber exatamente sobre o que é tudo isso. Logo tudo recupera seus valores morais e sociais.
- Bem vindo ao futuro - Minha secretaria comenta.
Logo descobri que passei por uma viagem no tempo devido há um fenômeno meteorológico gramatical, quando os planetas se alinham com o grau certo no momento certo com a tinta certa escrevendo as letras na ortografia e caligrafia definidas.
E como é incrível o futuro este que fui. Nunca pensei que teria uma secretara.
Tudo é muito rápido, menos o pensamento que se tornou a mais obsoleta das tecnologias. Então assim como não desgrudamos mais de celulares e computadores, os “pensadores” são a grande nova tecnologia. E diálogos como “O meu pensa a dez ponto giganeurônios por segundo, e o seu?” “Há, o meu é modelo antigo, não sei quando terei grana para pensar mais rápido”. Os pensadores recebem toda a informação fluida da rede. As pessoas conversam por telepatia, assistem filmes fechando seus olhos e escutam musicas apenas de lembrar o nome ou numeração da mesma no banco de dados. Os escritores não mais escrevem, apenas imaginam suas histórias e poesias na cabeça e recebem créditos neurôniais cada vez que as pessoas querem ver suas obras.
E eu descobri tudo isso apenas em milésimos de seguindo, pois meu pensador é de ultima geração. Isso é um pesadelo. Fico tonto, meu cérebro não está acostumado, cambaleio e acordo na frente de minha prancheta. Sinto uma caneta entre meus dedos, passo os dedos sobre o papel e quase choro ao sentir sua textura. É noite e fico com medo de dormi, pois todo amanhã é um passo a mais para aquele futuro medonho. Escreverei bastante, antes que palavras e pensamentos fiquem obsoletos.

(Samuel Gois Martins) 17/08/2006