“o governo e diversas multinacionais pagam os alienígenas cabeçudos para bombardearem em nossas mentes propagandas e publicidades subliminares””

Thursday, February 28, 2008

onde e como

Parecia existir um sino na cabeça, enorme, tocando pra doer, dentro de sua cabeça. Rodolfo passava as mãos pelo couro cabeludo como que cavando o câncer, ou seja lá o que for que provocava tanta dor. No banheiro, olhando para o espelho, seus olhos vermelhos por completo revelavam uma hemorragia, ou derrame, quem sabe. Os ouvidos estavam a ponto de estourar – E jatos de cera de ouvido com sangue jorravam como pus de suas orelhas. Rodolfo começou a bater a cabeça no espelho do banheiro, como uma forma para dar fim ao sofrimento. Perto dali, na rua, outras pessoas encontravam-se em quadros semelhante. Sangrando pelos ouvidos, agonizando de dor tentando estourar suas cabeças na primeira superfície sólida que encontrassem. Este surto tomou conta de toda a cidade, que ficou sitiada. Não havia sinais de sobreviventes. Militares e cientistas estavam confusos tentando entender que tipo de doença era aquela. No outro dia o corpo de Rodolfo, estirado no chão do banheiro, com o crânio estourando entre cacos de vidro começou a demonstrar espasmos. Muito desengonçado o corpo se sustentando entre parede e privada começa a andar, se arrastando e emitindo grunhidos. Rodolfo se reúne a outros, que mancam para fora da cidade.

Friday, February 22, 2008

usb

Mariula estava desesperada por sexo. Deus do céu. E nenhum vibrador. Saiu procurando por falos. Nenhum a satisfazia. Cabos de vassoura eram muito ásperos, copos podiam quebrar dentro dela, as frutas fálicas da geladeira lhe provocavam alergia, dentre outros problemas. Sentou no computador. Ver pornografia não rolava, tinha acabado de fazer as unhas e uma boa siririca também estava fora de cogitação. Escutar musica poderia ser uma boa para se distrair. Ao pegar no cabo usb levou um choque. Não um choque forte. Mas forte o suficiente para provocar a tórrida imaginação de Mariula. Pegou o fio usb que saia do computador, o mais longo possível, e enfiou nela mesma. O choque dentro de sua vagina a fazia gemer cada vez mais alto, desesperada de tanto prazer. Seus pentelhos ficaram em pé; e brancos.

Brian, o gênio

Brian é o maior cientista de nossa geração. E pode achar soluções tão rápido como as procede em poucos segundos. Essas coisas desencadeiam o perigo. Brian estava dando uma palestra, e era a hora das perguntas. Um homem careca com uma maleta dirige-se até o microfone. Grita como um louco e saca uma serra elétrica de sua maleta. Todos correm desesperados, gritos, choros, pedidos de socorro. “Você é meu!”, clamava loucamente o careca. Brian controla suas bexiga, e corre para os fundos do palco. Intermináveis corredores escuros. O fôlego vai acabando e o som da cerra elétrica aumentando. Brian se agacha em um canto escuro para esconder-se. O som aumentava cada vez mais, e bem do lado dele, perfurando a parede a cerra elétrica corta certeiro a mão direita de Brian. Um grito corrido de lágrimas quentes ecoa. Brian voltar a correr, e agora sangrar. Muito. Ao lado da palestra sobre tecnologia estava tendo um encontro nacional de pornografia e afins do ano. Correndo entre os estandes com vídeos pornográficos, revistas e... Maquinas de masturbação. São como mãos robóticas posicionadas para masturbar um homem. A mente brilhante de Brian, entre a dor, sangue e desespero começou a funcionar. O louco careca com uma cerra elétrica já matou quatro capas da playboy. Paro de escrever, minha colega começa a chorar, a mãe dela esta num quadro grave de câncer, todos a amparam. Nesse meio tempo Brian transformou a maquina de masturbar em uma mão biônica. Uma poderosa mão biônica do prazer. Um velho de pijama e charuto sai correndo, rápido demais para a idade dele até. Brian corre até o careca, segurando com a mão masturbadora a cerra elétrica de seu pretenso assassino. A mão é forte, e entorta a cerra deixando-a inutilizada. O careca pula encima Brian, mas não antes da mente Genial do milênio segurar o pênis do miserável. Que com uma força dolorosa masturba-o até sua morte. O homem cai morto – e duro – no chão. O silencio toma conta de todos, que ficam parados, olhando para Briam.
“Eu não sou gay”, ele diz.

Wednesday, February 20, 2008

quarta-feira

O dia não começou bem, nublado, chuvoso. Geralmente adoro dias assim – hoje não. Hoje isso é mau sinal. O escritório tinha o cheiro característico de um... Escritório. A recepcionista mandou que eu subisse com o jornal do setor. Um jornal mercantil. Só números e velhos falando de como a economia sempre está ruim. Jogo na primeira mesa pela qual passo em caminho até a minha mesa. Ligo o computador, começa aquela musiquinha que toca quando inicia o sistema operacional.

Tuesday, February 19, 2008

cabum

Aquelas embalagens de papel, que se põe pães em padarias. Ele amassou forte e deixou sobre sua mesa. Levantando e esquivando-se das cadeiras vizinhas saiu da sala. Começou a apressar os passos, até começar a correr. A sua secretaria terminava de atualizar alguns dados de faturamento e se assustou com a saída brusca de seu chefe. Um tique-taque agonizante toma conta da sala. O saco amassado de papel, aos poucos vai inflando. O nome da secretaria era Josefina, e amava o seu filho. Antes de morrer deu uma rápida olhada na fotografia do menino em sua mesa. Há poucos metros da empresa, um vendedor de cachorros-quentes termina de esquentar as salsichas.

Então tudo explode. Ele saiu bem na hora, entrou em um carro vermelho escuro e acelerou. O vendedor de cachorros-quentes falou “mama mia”, deixando uma salsicha que estava presa num garfo cair no chão. A salsicha rola para perto do prédio da empresa e começa a pegar fogo junto. Josefina está morta; seu filho a espera na porta da escola.

Thursday, February 07, 2008

mongo

O menino preparava toda uma civilização de areia. O rei desta civilização seria um siri. Seu nome seria Mongo. Pois se este menino vivesse em seu próprio mundo, haveria de ser chamado de Mongo, o terrível. Mal tinha cinco anos, a criança era um tirano. Um genial tirano, inclusive. Construiu uma forte parede de areia, que assim impede as ondas fortes de destruírem seu reino de areia. A verdade é que de tempos em temos uma criança, aos cinco anos, tem um surto tirânico, exatamente numa quinta feira de sol, quando os pais, vai Deus saber, decidem ir a praia. Esta criança, que pode ter sido eu ou você, começa a construir um império maligno de areia. Geralmente o surto psicótico megalomaníaco infantil deixa de existir no momento em que uma onda faz o seu trabalho. Caso não, o menino trará desgraças para o mundo. Provavelmente Mongo conseguirá.

Saturday, December 01, 2007

assim

Estava naquela mania feia de equilibrista de cadeira de escritório, pra lá e pra cá. Pisquei e já estava no chão, com traumatismo craniano, morto.

Todos no escritório estavam tão concentrados que meu ultimo dia de vida foi bastante despercebido. E só quando a redatora, ao reclamar do cheiro pediu para aumentar o ar-condicionado, mexeu a cabeça de relance – o suficiente para perceber que não estava de frente ao computador, e sim deitado no chão, com a cadeira e sangue. Ela começou quase que rindo e dizendo “eu falei que ficar balançando na cadeira daria nisso!”, mas quando notou o sangue já ressecado atraindo mosquitos soltou um grito de pavor. Meus outros colegas de trabalho se viraram, gritaram também. O faxineiro entrou correndo na sala, me viu, e também gritou.

Acho que todos da empresa gritaram neste dia. Depois chamaram uma ambulância, apesar de já ser tarde demais. Depois dos gritos tudo até procedeu rapidamente e meu velório no outro dia fora tranqüilo. Apesar de ter pedido para ser cremado fui enterrado no tumulo da familia, junto do da minha irmã mais nova falecida. Enquanto era enterrado sentia-me frustrado, sou gordo, abuso do açúcar e poderia ter morrido por algo assim pelo menos. Pelos meus vícios, diria. Se bem que balançar na cadeira poderia ser julgado como um vício, acho. O dia estava chuvoso. Parece que são sempre assim em enterros. A terra estava úmida e soltava um cheirinho gostoso de grama com terra molhadas. Estava muito escuro dentro do caixão.

Um tanto sufocante também.

Thursday, October 18, 2007

valeu a pena

Foi um pouco depois do almoço. Eu estava na mesa, e a garçonete vinha para limpá-la. Rabiscava no guardanapo. Enquanto passava o pano na mesa ela perguntou “você desenha?”, virei o rosto para responder. Mas na cheguei a ele. Fiquei preso no decote, olhando estupefato para encontro perfeito daquele abençoados par de seios. “Hein”, ela falou. Meio que despertei, falei um sim miúdo, ela sorriu com maldade.
“Quer desenhá-los?”
“Meu Deus do céu. Sim”, não pensei nem duas vezes. Ela se agachou um pouco mais, para que eu pudesse vê-los. Rabisquei freneticamente, tentando conter meus gemidos, me sentia me masturbando. Riscava com tanta força que rasgava o pape e arranhava a mesa, a testa suava, e ela lá, ofegando leve, esperando o produto final. Gozei com o ultimo rabisco, ela puxou rápido o desenho e o enfio entre as pernas, fundo. “Depois você pega de volta”, sussurrou em meus ouvidos e saiu para limpar as outras mesas.
Chequei para ver se tava muito aparente na calça. Não. Corri a passos curtos e ligeiros até o banheiro. Tirei as calças, puxei quase todo papel higiênico, pus a limpar meu pau. O cheiro de porra alastrou-se pelo banheiro e impregnou-se em mim. Sentei na privada, ciente que não tinha mais jeito, olhei o relógio, quinze minutos para voltar ao trabalho. Toc toc. “Ocupado”, respondi.
“Sou eu.”
“Puta merda”, destranquei o banheiro, ela entrou. Fungou o cheiro, sorriu. Sentou em meu colo, começamos a foder. Não sei bem, sentia uma dor estranha na ponta de meu pau, tudo bem, tava bom demais, com ou sem dor. Dava até mais prazer. Trepamos os quinze minutos que faltavam para o trabalho. Ela me beijou, piscou, saio do banheiro. Quando me toquei meu pau sangrava, todo cortado. Lembrei do papel que ela enfiou entre as pernas. O pau sangrava muito, sujando a calça, cueca, tudo. “Valeu a pena”, pensei comigo.

Tuesday, September 18, 2007

por acaso

Os dois se conheceram numa palestra sobre cinema. Notaram-se durante indagações sobre o expressionismo alemão. Ela achou o comentário dele extremamente ultrapassado, mas com um charme que só as pessoas ultrapassadas costumam ter. Ele a estereotipou pela roupa na primeira vista. Mas provavelmente foi a primeira vista de estereotipassão mais longa já feita na vida dele. Quando a palestra terminou, os grupinhos e panelinhas se formaram no corredor da saída, todos expondo aquele amplo conhecimento sobre cinema que todos que querem aparecer nesse ramo demonstram possuir. Ela de provocação criticou a opinião dele. Ele, claro, se sentiu provocado. E apontou suas hipóteses.
Ela não queria saber de hipóteses. Ela é do tipo que acha e pronto, e se não gostou azar. Menina geniosa. Os dois acabaram sozinhos naquele debate sem propósito. Simpatizaram-se, trocaram telefones e e-mails – foram para suas casas.
Daí se passou meses, e cada um viveu sua vidinha. Nunca mais pensaram um no outro, senão por acaso, vez por outra, por segundos, e milésimos de segundos. Mas então, aconteceu que na carteira dele, socada lá no fundo, um papelzinho com um e-mail chamou atenção, e ele sem saber quem ou de onde simplesmente cadastrou em seu chat para desvendar o mistério.
Por sorte, quem sabe, ela estava na internet, pesquisando sei lá o quê, viu o estranho aparecendo em seu chat. Ela fez : “quem é você?”.
”Sou eu, e você?”
“Eu”.
E assim deletaram logo em seguida os contatos um do outro.

Tuesday, September 04, 2007

profecia

Uma mesinha frágil, com copo seco há uns dias, porta lápis cheio de tesouras e réguas mas nenhum lápis, impressora quebrada, boneco do Batman brinde de um ovo da páscoa, telefone fora do gancho, grampeador sem grampos, escritor sem idéias.
Ele fica em um quartinho, daqueles bem clichês escuros dos escritores isolados e sem dinheiro, com provavelmente cheiro de cigarro, bebida e testosterona sedentária fortes. Fazia muito tempo que ele não dormia, e ele nem lembra quando foi que entrou no quarto para escrever – jurou sair só quando terminasse seu romance. Na metade da primeira página a trama se desvinculou das primeiras idéias descritivas e transformou-se numa ficção de surreal desdobramento. A lâmpada da luminária desenroscou-se lentamente continuando acesa – e brilhando cada vez mais. A lâmpada criou vida, e inclusive falou “Sou um anjo enviado por deus do mundo das idéias”. O escritor antes de qualquer coisa pensou a respeito da cafonice que seria um anjo em forma de lâmpada representando o mundo das idéias em seu livro. Depois ele se assustou, ajoelhou e gritou por piedade. A lâmpada flutuando por mais que brilhasse não iluminava o quartinho, fazendo parecer um enorme espaço negro sem fim. Ajoelhado o escritor puxava com a mão direita a bermuda que deixava escapar o cofrinho e com a esquerda fazia sinal da cruz. “Palerma, é com a direita que se faz sinal da cruz”, exclamou a lâmpada angelical. O escritor chorava de medo e desespero se perguntando se já estava morto ou iria começar em algum momento. “Não sou anjo deste Deus, palerma. Sou do mundo das idéias, idealizada por Sócrates”!
“Platão”.
“Que seja!”.
Bem na hora da quebra de parágrafo, pensou o escritor. Pouco antes da metade da primeira página de seu livro perdeu o fio da ninhada. Poderia ter vindo uma musa sensual, e não uma lâmpada fluorescente. O escritor segurou sua incontinência urinaria, encheu seu coração de coragem e perguntou “o que você quer?”. A lâmpada então sorriu. O escritor viu pela primeira vez uma lâmpada sorrindo – e ninguém mais sabe como é além dele. Sorriu e falou “Estamos com discos voadores poparts espalhados por esse planeta, e finalmente dominaremos o mundo como temia seu velho filosofo”.
Aquilo era mais do que filosofia, era ficção cientifica descabida misturada com religiosidade e noções básicas de filosofia e arte extremamente mal estudadas.

Tuesday, July 03, 2007

reunião

Suas pernas eram lindas. Soberbas. Descruzou e cruzou de propósito. Estava sem calcinha, aquela vadia. Ascendeu um cigarro, bebericou o whisky.
- Você fuma? – ela perguntou.
- Não, nem bebo. Mas pode ficar a vontade. Não me incomoda a fumaça.
Embaralhei as cartas de varias formas possíveis para passar o tempo. O gosto de fumaça entrou pelo nariz e secou a garganta. Faltava a chegada de Bob.
- Você é o que dele mesmo? – perguntei.
- Ex. A que sobreviveu aquele maníaco.
Exagerada. Todas elas. Bob é um filho da puta, e as mulheres adoram os filhos da puta. Lembro-me quando Bob comeu a gatinha da sala em plena quarta serie. E depois a professora. Era horrorosa, foi uma aposta. Já fazia duas horas desde o horário marcado. Fazia anos que ele não ligava pra mim.
- Aló?
- É o Bob.
- Há.
- É.
- Hum.
- Escuta, preciso falar com você.
- To sem grana.
- Não é isso. É muito importante para mim. Naquela lanchonete que dizem assar ratos. Como quando éramos garotos.
- Hoje em dia é uma Mcdonalds.
- Isso. Na Mcdonalds ás três da tarde. Conto com você. Clic.

- Você tem fogo?
- Hum?
- É que acabaram meus fósforos.
Ela até que era bonita de rosto também. Bob é um canalha filho da puta miserável.
- Já falei que não fumo.
Ela olhou feio pra mim, deu fim a sua bebida num gole só. Depois soltou um arroto.
- Desculpe.
- Tudo bem.
Depois de mais uns quinze minutos ele chegou. Estava acabado, com óculos escuros remendados. Circulou pela lanchonete como que fingindo que não nos avistara, depois com o cinismo que lhe é sempre atribuído abriu os braços sorrindo exageradamente.
- Docinho!
- Seu merda.
- Meu chapa!
- Já falei que to sem grana.
Daí ele puxou uma cadeira, sentou que nem um texano metido e contou uma história extraordinária sobre andar pelo deserto por semanas, visões espirituais, alienígenas viciados, entre outras coisas absurdas. Deus sabe como aquilo tudo era ridículo, mas é raro ver sinceridade nos olhos de Bob como naquela hora.
- Tudo bem Bob, toma dez pratas.
- Obrigado cara!
- Meu docinho, quer dormir no meu apartamento hoje?
- Já disse que te amo meu amor?
O casal de pombinhos foi na frente. Fiquei mais um pouco na lanchonete, pedi um hambúrguer. E adivinhem só: quando abri o sanduíche para por ketchup tinha um rato tostado lá dentro.

Tuesday, May 29, 2007

Drinking Dog

Ele tinha uma cachorra alcoólatra, e nunca soube seu nome. De tão bêbada só gemia e soltava um latido fino que indicava constante ressaca. Entendia muito de cinema, e sua principal atração era os filmes expressionistas alemães. Perdeu a virgindade com apenas oito anos. Uma cadela vira-lata, jogada no sofá vendo televisão. Tinha que tomar cuidado para não escorregar nas garrafas que ela deixava jogadas pelo chão. Eu era um escritor, ninguém nunca lera o que escrevi. Nem nunca publiquei. A única pessoa que conhecia era a cachorra para quem eu lia os contos em voz alta. Ela nunca deu uma opinião formada. Mas acho que se continua jogada do meu lado enquanto escrevo, ao menos não é insuportável. Às vezes quando as idéias não viam discutíamos literatura, cinema e coisas que os universitários de comunicação fazem para fingirem que possuem algum conteúdo. Ela, por ser uma cachorra, não podia fazer curso superior. Mas lia tudo que podia, e entenda muito mais de antropologia que qualquer professor que já tive.
Um dia cheguei em casa, e a cachorra estava deitada de barriga para cima, com os olhos muito vermelhos de tanto chorar. O telefone estava fora do gancho. Peguei-o para escutar quem estava do outro lado. Estava em algum tipo atendimento de apoio para alcoólatras. Ela queria ir para o AA, e queria fazer um documentário sobre isso. Seria um sucesso o documentário sobre a cachorra cineasta alcoólatra tentando abandonar a bebida. Uma inspiração para todos os outros caninos viciados.

Wednesday, April 25, 2007

minotauro

Tem livros empilhados.
Até o teto, parecem pilares que o sustentam. O quarto é pequeno, mas os pilares criam caminhos mofados e escuros que fazem com que me perca facilmente. Tudo é tão colorido, com capas vermelhas, verdes, azuis, desenhadas, de couro, papel. Com marca textos enfiados, de pontas tão afiadas que meu corpo está cheio de cortes. Os cortes pingam sangue, e já faz tantos litros pingados desde que comecei a empilhar que o chão é todo vermelho. O cheiro é acre, misturando sangue coagulado, poeira, livro novo, suor, fezes e urina. Perdido entre os corredores de livros não é possível achar um banheiro. Ele ainda nem começou a ler direito o primeiro. Mas seu vicio o trancafiou assim. Num cenário tão assustador quanto um pesadelo cinematograficamente cafona. “É tudo culpa da vida acadêmica”, ele comenta para os visitantes perdidos em algum lugar nesses corredores e pilastras. Ele é como o Minotauro: preso e guardião.

Tuesday, April 24, 2007

amor

Sua namorada uma vez deu uma idéia:
- Por que não usa a cachorra que te dei?
Ela era uma menina normal, ele nunca imaginou uma coisa como essas.
- Que coisa nojenta! Isso é doentio, amor!
- Se você por uma camisinha e fechar os olhos, aposto que nunca iria notar a diferença.
O assunto era sexo oral e as maneiras que ela inventava para ele sempre pensar nela. Era uma menina adorável, mas com algumas idéias bastante estranhas. Foi trágico o dia que ela morreu, atropelada por um carro de som. Ele ficou tão deprimido, triste, desesperado. Era seu grande amor. Sua fonte de sexo fixo. Louco de tanta tristeza, não foi surpresa o que ele pensou quando sua cachorrinha veio consola-lo. Tateou uma camisinha na carteira e o fez.

Friday, January 26, 2007

Musical

”Hoje de manhã cedo. Quando você bateu na minha porta. Eu disse olá, Satan, acho que é hora de ir". Essas palavras não eram de Bob – eram da música quando ele chegou no bar. Mas eram palavras de comprimento do próprio bar falando “Boa noite, Bob. Entre, por favor, beba, fique a vontade, dê uns tragos, ame minhas mulheres por mais uma noite”. E Bob respondeu “Obrigado, claro, uma bebida barata, por favor. Mulher venha aqui, uma bebida para está mulher; sorria mulher, hoje é um bom dia e será uma boa noite”. E no ritmo das palavras de Bob, a porta fechou rangendo e mesclados com aquele velho Jazz pareciam uma musica só. Aquele Bar era uma velha canção de ninar para Bob quando ele queria dormir em grande estilo.

Friday, January 19, 2007

trec, trac,

Havia algo mágico no condomínio que moro: por não termos porteiros cada um tinha de carregar suas chaves. O que nunca acontece na vida real. Então era aquela coisa: esqueci a chave, fico lá embaixo, aparece alguém do prédio que abre. Começam aquelas conversas do tipo “ta quente hoje, hein?” e coisa e tal. Em 20 anos de vida, esse foi o prédio mais social que morei por causa disso. Dai botaram os portões automáticos. Era só interfonar que lá de cima aperta-se os botoezinhos, trec, trac, abriam os dois portões que separam os gatunos do elevador principal. Acabou aquele fenômeno social: ninguém mais tinha oportunidades de falar do calor e “coisa e tal”. Nem lembro mais do rosto de meu vizinho (que desconfio ser homossexual – nada contra é claro). Acabou a sociabilidade e as chances de trocar algumas palavras com aquela menina bonita do andar de cima. Poderíamos até ter nos casado, filhos etc. Mas não da mais devido aos benditos portões automáticos.

Saturday, December 30, 2006

macacos

Certa vez avistei macacos atacando um bebedor escolar.
Você vai dizer que estou mentindo. É a pura verdade. Não tenho testemunha alguma além de meus dois precários globos oculares. Certa vez matei aula um mês inteiro. Não chegava nem a entrar no colégio; uma amiga já me esperava sentada lá embaixo. Perguntava se tava afim de tomar sorvete.
E íamos tomar sorvete.
Um mês tomando sorvete toda manhã. E depois, o ano ia acabando.
Essa amiga nunca mais vi; tirando uma vez na rua, quando não fui reconhecido. E teve outra vez, que fui reconhecido, num ônibus. Perguntou como se falava determinada coisa em japonês. Eu respondi. O ônibus parou e ela se foi. Quando ela precisava de mim fui reconhecido. Nesse dia entendi como são as pessoas. Não condenei. Nesse dia também tinha ido ao cinema, era sexta-feira e gostava de ir ao cinema nas sextas-feiras. Não tinha ninguém na sala além de mim – e foi o dia que entendi que estava só. Nunca falei pra ninguém a respeito dos macacos.E logo naquela hora o que eu mais queria era falar sobre os malditos macacos.

Saturday, December 16, 2006

insônia

Aparecia pela manhã. Parecia sua mãe, reclamando que ele deveria voltar a dormir, se medicar e voltar a estudar. Ele era um adolescente acabado e inconformado com o rumo das coisas, e tudo que lhe restara era uma menina que só fazia reclamar. Ele não reclamava, pois adorava seu cafuné. Estava sem dormir há pelo menos duas semanas, e ficava cada vez mais difícil distinguir a realidade dos sonhos frustrados. A chata aparecia pelo menos duas vezes por semana e perguntava “dormiu hoje?”. Ele ficava escrevendo no computador, lendo alguma coisa, vendo televisão, comendo porcaria. E quanto às noites: sempre respondia comentando a respeito de um eterno jogo de xadrez que travava com um conhecido na internet. “Acho que ganho dessa vez”. A menina fazia um olhar preocupado, diferente de qualquer outro. Ele tinha vontade de ficar sem dormir todas as noites, só pra sentir a ternura daquele olhar. “Quando ganhar ou perder vai voltar a dormir pelo menos?”. “Tenho medo do que eu venha a perder se voltar a dormir”, respondeu por fim.

Saturday, December 09, 2006

podre por dentro

Passou o dia andando, pra lá e pra cá. Era o dia mais quente do ano, e seu rosto estava avermelhado, fritando. Os olhos estavam tristes, escondidos por baixo da cabeleira. Também devia cortar o cabelo, deixar umas cartas e pagar contas naquele dia. Funcionava como um robô, sem pensar demais, apenas processando e organizando o que tinha de ser feito naquele dia. Andando lentamente, para gastar o máximo de tempo que pudesse.
Cada vez mais o rosto dele fritava.
Suor inalava um fedor incomum, como se estivesse completamente podre por baixo da pele. Já passavam das seis horas, e para demorar um pouco mais pegou o ônibus que mais rodaria a cidade. Naquele dia não havia porteiro, e esquecera a chave de propósito. Ficou encostado, esperando até que alguém chegasse para abrir a porta. Passou uma pessoa, perguntou se ele ia entrar; respondeu que não. Decidiu que esperaria sua mãe.
A mãe perguntou se ele estava bem, lhe entregou algumas sacolas e subiram o elevador. Ele ficou calado; esperando a mãe reclamar que ele deveria tomar um banho. Ela reclamou e ele foi tomar um banho. Seu rosto ardia com a água caindo. Ardeu muito mais suas lágrimas salgadas: caiam discretas enquanto tentava dormir.
No outro dia acordou e viu seu rosto todo marcado e ardido onde desceram as lagrimas. Como uma maquiagem borrada na pele, revelando o que estava podre por trás. Aquela ardência o lembrou de sua tristeza por alguns dias.
Quando o rosto estivesse normal poderia fingir que estava tudo bem.

Wednesday, December 06, 2006

exsudato e polimorfonucleares

Renato espremeu o máximo que podia, entre os dedos escorregava devido ao suor e pus. Era tão perto da virilha que uma pessoa de longe iria achar quer ele estava tentando arrancar o próprio pênis. Sua careta não mentia: doía. Doía pra caralho.
Sangue misturado com pus pregavam os pentelhos entre si, manchavam a calça com um raro vermelho amarelado esverdeado.
Parecia que nunca ia acabar.
E não acabou. Renato desistiu, foi ao banheiro, lavou bem o cacete na torneira. A pia ficou cheia de sangue e pentelhos. Mamãe sempre falava que se deve limpar a pia depois de usá-la. Renato sempre foi teimoso, e deixou a nojeira do jeito que tava.
No dicionário pus é exatamente uma mistura de exsudato inflamatório, leucócitos polimorfonucleares vivos e mortos, e bactérias vivas e mortas. Renato fechou o dicionário enojado da própria raça. Com medo de voltar ao dicionário e descobrir que porra é exsudato e polimorfonucleares. A virilha doía com o furúnculo semi-espremido, impedido qualquer ato de cunho sexual confortável.
- Alô?
- Deixa pra próxima semana, Márcia.
- Ainda é aquele furúnculo?
- Cada vez fica maior, dói e sai pus. Já to achando que é esperma acumulado por falta de sexo mesmo.
- Não duvido. Já faz quase um mês, vai num medico. Vai que é algo grave. Você pode perder seu pau, sabia?
O medico ficou olhando por pelo menos uns dez minutos. Depois começou a apalpar.
- Dói aqui?
- Você não faz idéia...
- E aqui?
Renato só conseguia responder com uma careta, pretendo os dentes, fechando os olhos, criando inúmeras rugas na testa. O medico parou de apalpar, e começou a escrever uma receita em sua prancheta.
- É algum tipo de infecção. Mas tratável. Não se preocupe.
Um peso enorme caiu da consciência de Renato.
- Compre esse antiinflamatório, evite por a mão, limpe bem com sabonete neutro e em uma semana tudo voltará ao normal.
O alivio era tamanho que no caminho de volta caíram lágrimas. Nunca chorou por ninguém. O pau seria uma aceitável exceção. Poderia ver o significado de exsudato e polimorfonucleares sem medo.